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Linguagens para a construção do ser e da cidadania em adolescentes e jovens em situação de risco: relato de uma experiência

Trata-se de um relato de experiências vivenciadas por jovens e adolescentes em situação de risco e exploração sexual, integrantes de uma instituição não-governamental do Terceiro Setor, intitulada TABA – espaço de vivência e convivência do adolescente, localizada na cidade de Campinas, SP, que atua na promoção de oportunidades para que discutam, reflitam e construam novas formas de perceber a realidade a partir de suas próprias condições. A investigação visou contribuir, a partir do uso da dança circular e de outros recursos expressivos, para o resgate da singularidade dos adolescentes e jovens, procurando sensibilizá-los para despertar e expandir a consciência, expressando os sentimentos e emoções vivenciados no grupo, possibilitando que construíssem simultaneamente o diálogo interno e o diálogo com os demais participantes e com os diversos materiais plásticos já que a abordagem metodológica adotada na experiência foi a da fenomenologia existencial com o uso de recursos da gestat-terapia.


A brief passage of the story for the readers

Este estudo constitui-se em um relato de experiências vivenciadas por jovens e adolescentes em situação de risco e exploração sexual, integrantes de uma instituição não-governamental do Terceiro Setor, intitulada TABA – espaço de vivência e convivência do adolescente, localizada na cidade de Campinas, SP, - Brasil, que atua na promoção de oportunidades para que discutam, reflitam e construam novas formas de perceber a realidade a partir de suas próprias condições. O trabalho visou contribuir, a partir do uso da dança circular e de outros recursos expressivos, para o resgate da singularidade dos adolescentes e jovens, procurando sensibilizá-los para despertar e expandir a consciência, expressando os sentimentos e emoções vivenciados no grupo, possibilitando tanto o diálogo interno quanto o diálogo com os demais participantes e com os diversos materiais plásticos. Para a concretização dessa experiência foram desenvolvidas 25 oficinas de arte e cidadania a partir da postura fenomenológica existencial. Como resultados se pode registrar que a linguagem da arte possibilitou o desenvolvimento da individualidade e da singularidade em cada participante já que permitiu o desenvolvimento de uma linguagem expressiva própria nos adolescentes. Essa linguagem não apenas reflete a visão sobre o mundo exterior como também os seus aspectos interiores. Como arteterapeuta gestáltico acredito no ser humano como possível artista de si, alquimista de sua existência, autor de sua história, um ‘ser no mundo’, relacional, em constante processo de devir. A experiência vivida mostrou que isto ocorre mesmo quando a realidade apresenta opções limitadas. As atitudes presentes na relação dialógica possibilitaram o encontro com o outro diferente, com o sagrado de cada um, com aquilo que se apresenta; com o que se é de fato. Considerando o contexto social, histórico, cultural e econômico dos adolescentes participantes da investigação, percebe-se que a realidade em que vivem restringe o poder e a possibilidade de liberdade, escolhas e decisão. Caminhando na direção contrária a esse vento, as oficinas arteterapêuticas desenvolvidas com eles criaram um espaço para a reflexão, diálogo, criação, expressão, manifestação dos sentimentos e pensamentos nos jovens, viabilizando uma abertura com o todo e o retorno ao si mesmo perdido. O enfoque nas relações, no grupo, na valorização da identidade pessoal e social contribuiu para despertar o sentimento de pertencimento e integrou o planejamento de todas as oficinas realizadas. A arte, o lúdico, o expressivo são elementos que devem ser repensados em diversos âmbitos institucionais e podem contribuir beneficamente para a saúde das pessoas. A arte aproxima as pessoas, faz com que entrem em contato com o seu eu mais sensível, autêntico, e intuitivo. Comunica a grande vida interior, o desconhecido, o verdadeiro. A experiência deixa como resultado que o processo vivido pelos adolescentes no período da investigação serve como um ponto de partida – uma porta de abertura para que eles reflitam sobre si mesmo, o mundo e a realidade a sua volta.

O que é que caracteriza as experiencias narradas do ponto de vista das pràticas, dos significados, dos saberes e aprendizagens que estes podem nos transmitir?

A investigação foi fundamentada a partir três correntes teóricas: a gestalt, o existencialismo e a fenomenologia existencialista. A semelhança entre essas três concepções de construção de conhecimento está na visão de homem. Tanto a gestalt como o existencialismo privilegiam o homem como ser livre e responsável, a crença no aqui e agora, na capacidade do homem tornar-se cada vez mais consciente de si, a partir de suas experiências vividas e de uma visão holística que o considera como ser no mundo. Na visão existencialista, o indivíduo possui a capacidade de escolher e criar seu próprio destino, transcendendo limites e condicionamentos mesmo diante de condições inabitáveis, não podendo ser considerado e visto como “produto do meio”, mas capaz de interagir de forma singular. Por outro lado a investigação fenomenológica busca a consciência do sujeito em suas experiências internas. A interpretação do mundo é feita com base na experiência vivida pelo sujeito, pois ele é ativo, percebe e vive um determinado fenômeno. A fenomenologia-existencial é o entrelaçamento da fenomenologia com o existencialismo. A gestalt-terapia se baseia na filosofia existencial e utiliza os princípios considerados existencialistas e fenomenológicos. A gestalt é realizada no aqui e agora, como o movimento de nossa própria vida. Aqui e agora é um conceito holístico, presente no presente, é o fenômeno, envolve a totalidade da experiência humana. Essa abordagem visa possibilitar a compreensão do processo singular de cada indivíduo, identificando diversos aspectos. A investigação foi realizada no período de agosto de 2007 a agosto de 2008 totalizando 100 horas de trabalho de investigação intitulado de estágio supervisionado. Além dessas horas, houve cerca de mais 100 horas de trabalho voluntário na instituição, oportunidade em que se atuou como educadora de outros grupos de formação e como integrante do grupo de estudos sobre políticas públicas. Foram realizadas 25 oficinas de trabalhos com adolescentes, cuja idade variava entre 10 e 18 anos, que vivem em situação de risco e exploração sexual comercial infantil (muitos deles na rua ou em abrigos público). Nestas oficinas, organizadas para possibilitar o despertar dos adolescentes para si próprios e para a realidade que os cerca, se trabalhou, a partir do uso de recursos plásticos e da dança circular, um conjunto de conceitos que favorecem a construção da consciência e o resgate da singularidade pela expressão de sentimentos e emoções. Os objetivos específicos das oficinas foram: permitir o despertar interior; possibilitar o desenvolvimento do respeito mútuo; favorecer a construção de identidades nos adolescentes possibilitando que se formem como sujeitos ativos, críticos e transformadores; desenvolver o sentimento de pertencimento; promover um espaço aberto para discussões e diálogos; tomada de consciência e construção da cidadania. Os procedimentos adotados para a realização dos 25 encontros foram divididos em três etapas: 1- de aproximação, vinculação, exploração ou aquecimento – essa etapa teve como objetivo 'quebrar o gelo' entre os participantes. Por essa razão se privilegiou atividades de relaxamentos, meditação, sensibilizações, alongamentos, danças circulares, utilização de instrumentos musicais. Nessa etapa eram também realizadas as trocas de informações, as apresentações de novos integrantes e as informações sobre a sequência das atividades da oficina; 2- do despertar/da sensibilização ou da utilização dos materiais plásticos – essa etapa teve como objetivo despertar/sensibilizar os adolescentes para a conscientização a partir de uma temática escolhida por eles próprios. Assim as atividades de arteterapia privilegiaram as relações, a expressão dos sentimentos, as percepções sobre o mundo e o espaço físico e psicológico, as relações com o outro e com o corpo. Essa etapa foi realizada a partir do desenvolvimento de atividades arteterapêuticas que focavam as diferentes culturas como, por exemplo, a indígena, a africana, a celta, a indiana e a brasileira. Normalmente se trazia informações gerais sobre a cultura e os materiais plásticos para que os adolescentes desenvolvessem suas expressões artísticas de forma coletiva; 3- da reflexão ou partilha de sentimentos – essa etapa fechava o ciclo sendo considerada como um encerramento, ou seja, se retomava alguns dos conceitos trabalhados na etapa do despertar discutindo sua relação com os fatos cotidianos que circundam a vida dos adolescentes. Nessa etapa, os adolescentes tinham a oportunidade de exteriorizar seus sentimentos e de expor ideias, opiniões e críticas, fato que contribuía para capturar a lógica que adotavam para construir conceitos e relacioná-los com o mundo concreto. Todas essas etapas ocorriam em cada encontro e possuíam o mérito de se integrarem entre si. O papel da pesquisadora era o de facilitar a expressão e a criação artística sem intervenção psicoterapêutica. Nas oficinas também participavam outros profissionais da instituição como assistentes sociais e psicólogos, fato que favoreceu um trabalho multidisciplinar. A coleta dos dados a serem analisados era feita a partir do preenchimento de uma ficha denominada de diário de campo. Nessa ficha, preenchida a cada final de encontro, se descrevia os seguintes itens: 1- número do encontro; 2- descrição da atividade executada; 3- objetivos do encontro; 4- material plástico utilizado na execução da proposta; 5- observações (espaço para se descrever os principais fatos que ocorreram em cada uma das etapas descritas no item anterior); e 6- sentimentos mobilizados nos participantes (espaço em que se expressa as impressões captadas entre os adolescentes). A partir desse material os dados foram analisados e categorizados tendo sido identificadas as seguintes categorias de análises: 1) sentimentos; 2) atitudes e 3) conhecimento e autoconhecimento individual e coletivo. A análise de dados apontou que o uso da linguagem artística é um recurso educativo valioso para a construção do ser e da cidadania. Ela oferece oportunidades para que os indivíduos descubram o seu caminho; mudem a perspectiva focando o seu interior para buscar o equilíbrio e discernimento. A experiência sinaliza para o fato do despertar da consciência permitindo que os adolescentes formem novas significações para os seus sentimentos e criem conexões com a realidade, fato que fortalece a relação deles com eles próprios e com os diferentes pares.

Áreas temáticas:

Human rights

Outras temáticas (inserir de três a cinco categorias entre os enumerados acima, separadas por uma vírgula):

Autor - autores

Juliana Zavaglia Mascarenhas Torres Ribeiro <juliana.zmt@terra.com.br>

Indique se você participa como (Exigido):

Indivudual author

Secção, da qual você participa:
studi e ricerche
Linguagem (Exigida):
Texts
Línguas usadas para o trabalho (Exigidas):
Portuguese
Qual è o tipo de documentação que você recolheu ou produziu para realizar o trabalho? (Exigida)
Bibliographical research
Se você escolheu “outro”, específique o tipo de fonte da documentação que você usou:
Fiz trabalho de campo seguindo critérios de validade científica. Adotei o diário de campo e registrei nele os acontecimentos que ocorreram nas 25 oficinas. Posteriormente este material foi analisado e dele surgiram as categorias de análise que embasaram a compreensão da realidade estudada e ofereceram algumas alternativas para se pensar o fenômeno investigado.
O trabalho foi realizado também com a contribuição de músicas, imagens, pesquisas, etc., feitos por outras pessoas (orginal ou já existia)? Quais?
O trabalho foi realizado a partir da contribuição de músicas populares de vários artistas que serviam de apoio para o desenvolvimento das atividades principais em arte. Entretanto estas músicas não são inéditas porque são músicas populares de grande uso na mídia local.
Período, ao qual, os acontecimentos narrados se referem:
8/2007 - 8/2008
Período no qual foi feito o trabalho:
8/2007 - 8/2008
Indique se o trabalho já foi publicado em parte ou integralmente:
Yes, partially
Eventuais publicações antecedentes – integrais ou parciais – do trabalho, participação concorrendo a prêmios, etc. (Exigido):
O trabalho gerou uma monografia de especialização em Arteterapia.
As organizações conhecidas, por exemplo, editoras, que me concedem usar o trabalho de publicação precedente:
Não se aplica porque o trabalho é público.
Que coisa incentiva você a participar desse prêmio? Quais são as suas expectativas?
A principal razão da minha participação é a divulgação da experiência já que seus resultados podem ser multiplicados. O fato de contribuir para construir nas pessoas uma nova visão sobre si mesmas e sobre a realidade que os cerca me estimula a desenvolver outras experiências e a perceber que são a partir de ações simples mas bem estruturadas que podemos contribuir para tornar o mundo mais humano. Poder disseminar a experiência, dialogar com interlocutores de outros países, mostrar os resultados alcançados bem como possibilitar que outras pessoas interessadas avançem em outras experiências tomando a minha como referencial são motivações mais do suficientes para mobilizar em mim o desejo de ver a experiência divulgada no mundo todo.
Country

Brazil

Allegato

Linguagens para a construçao do ser versao Espanhol JulianaZavaglia

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